O urso é o símbolo da Rússia por dois caminhos que se encontraram. Dentro do país, ele foi por milênios um animal sagrado, tão respeitado que nem se dizia seu nome. Fora, viajantes e cartógrafos europeus passaram a desenhar a Moscóvia com um urso a partir do século XVI. Os russos ficaram com a imagem e deram a ela um sentido próprio, que chegou ao auge com o ursinho Misha, mascote das Olimpíadas de Moscou de 1980.
O que significa medved, a palavra russa para urso
A palavra russa para urso, medved (медведь), significa literalmente “o comedor de mel”. Ela junta “mel” a uma raiz eslava antiga que quer dizer “comer”. A explicação que muita gente aprende, “aquele que conhece o mel” (de мёд e ведать), é uma etimologia popular e não se sustenta.
O mais curioso é o motivo de o urso ter um apelido no lugar de um nome. Os eslavos antigos evitavam pronunciar o nome verdadeiro do animal, por respeito e por medo. O nome original, parente do grego arktos e do latim ursus, caiu em tabu e foi trocado por uma descrição. A descrição pegou, e o nome antigo sumiu da língua russa.
Os apelidos nunca pararam de surgir. O dicionário de Vladimir Dal registra formas como Mikhail Ivanovich Toptygin (Михайло Иваныч Топтыгин) e kosolapy (косолапый), “o de pés tortos”. Chamar o urso por nome e patronímico, como se chama uma pessoa mais velha, mostra o lugar que ele ocupava na cultura popular.
Quando o urso passou a representar a Rússia
Foi no século XVI que o urso começou a aparecer como marca da Moscóvia aos olhos da Europa. O historiador sueco Olaus Magnus colocou o animal sobre as terras russas no mapa do Norte da Europa que desenhou em 1539. Em 1541, Anton Wied, senador de Gdańsk, fez o mesmo num mapa preparado para o texto do barão Sigismund von Herberstein, diplomata que esteve em Moscou.
As “Notas sobre a Moscóvia” de Herberstein, publicadas em 1549, foram um dos primeiros relatos europeus a falar de ursos russos, e o mais detalhado da época. Depois vieram Raffaello Barberini, Alessandro Guagnini e Giles Fletcher. Os textos desses autores se parecem muito entre si e espalharam pela Europa a anedota de ursos “domesticados” andando livremente pelas ruas. Esse conjunto de relatos é o ponto de partida do urso como símbolo da Rússia para quem olhava de fora.
O urso nos brasões das cidades russas
Enquanto a Europa desenhava a Moscóvia com um urso, as próprias cidades russas o colocavam nos brasões. O caso mais conhecido é Iaroslavl, onde o urso aparece no brasão a partir do fim do século XVII. Com o tempo, a lança em forma de cruz que ele segura virou um machado. A lenda local conta que Iaroslav, o Sábio, foi atacado por um urso naquele lugar, abateu o animal com um machado e mandou erguer ali uma igreja.
Em Novgorod, o brasão aprovado por decreto de Catarina II em 16 de agosto de 1781 traz dois ursos negros sustentando um trono dourado, com cetro, cruz e um candelabro de três velas acima.
A Academia dos Ursos de Smorgon
No século XVII, na cidade de Smorgon, então parte da República das Duas Nações, funcionava a chamada Academia dos Ursos (Медвежья академия). Os animais eram adestrados ali e vendidos a circos e feiras da Europa. A escola ficou tão famosa que o dicionário de Dal registra a expressão “estudante de Smorgon” (сморгонский студент) como apelido do urso.
Uma versão conhecida diz que compradores europeus, pouco atentos à geografia, achavam que a academia ficava em território russo, e isso teria reforçado a fama do urso como animal da Rússia. É uma versão, e não explica sozinha o símbolo, mas mostra como os espetáculos com ursos amestrados ajudaram a fixar a imagem.
Na Rússia, esses espetáculos duraram até o século XIX. Em 1865 foi fundada no Império Russo a Sociedade de Proteção aos Animais, com cerca de cinquenta membros. Com apoio da Igreja, ela pediu ao Ministério do Interior o fim do uso de ursos para diversão e lucro. Dois anos depois, um decreto imperial proibiu as apresentações.
Das caricaturas estrangeiras ao orgulho russo
A partir do século XVIII, o urso entrou na sátira política europeia. Na série de gravuras inglesas “The European Race”, de 1737, a Rússia já aparece como urso. No século XIX, o recurso virou regra nos mapas satíricos publicados em Hamburgo, Paris, Londres e Tóquio. Ali o urso servia para pintar a Rússia como força selvagem e imprevisível, muitas vezes acompanhado de rótulos como “tirania” e “despotismo”.
O que veio depois é o mais interessante. Como não havia jeito de desfazer a associação, os próprios russos a assumiram e mudaram o seu sentido. O urso das caricaturas virou, em casa, o dono da floresta: forte, calmo e protetor.
Misha, o urso olímpico de 1980
O ponto alto dessa virada foi o ursinho Misha (Мишка), mascote dos Jogos Olímpicos de Moscou de 1980. A escolha começou em 1977 com uma consulta à população, e o filhote de urso venceu com folga. O desenho final é do ilustrador de livros infantis Viktor Chizhikov.
Na cerimônia de encerramento, em 3 de agosto de 1980, no estádio Luzhniki, uma escultura inflável de Misha subiu sobre as arquibancadas presa a balões, acenou com a pata e foi embora pelo céu, ao som da canção de despedida cantada por Lev Leshchenko e Tatiana Antsiferova. No painel formado pelo público nas arquibancadas, uma lágrima escorreu do olho do ursinho. O boneco pousou perto das Colinas dos Pardais (Воробьёвы горы), e a cena virou uma das memórias mais afetivas da história soviética.
O que o urso representa para os russos hoje
O sentido que os russos deram ao urso continua vivo. Numa pesquisa feita em agosto de 2026 pelo serviço de livros Litres e pelo banco VTB, com mais de 800 pessoas de várias cidades, 79% apontaram o urso como o principal símbolo da força de espírito e da sabedoria do povo russo.
O urso que os mapas estrangeiros usavam como ameaça chegou ao fim do século XX como um ursinho que se despedia do mundo com uma lágrima. É um bom resumo de como um povo pode tomar um símbolo que lhe atribuíram e fazê-lo seu.
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Fontes
- История.РФ, “Как медведь стал символом России?”: Academia de Smorgon, decreto de 1867, caricatura do século XIX. https://history.ru/read/articles/kak-medved-stal-simvolom-rossii
- Грамота.ру, resposta da redação sobre a etimologia de “медведь” (mel + comer; tabu do nome indo-europeu). https://gramota.ru/spravka/vopros/268019
- Культура.РФ, verbete “Медведь” do dicionário de Dal: apelidos do urso e “estudante de Smorgon”. https://www.culture.ru/lectures/dictionaries/66134/medved
- RIA Novosti, 2018, “Ехали медведи на велосипеде: как Хранитель леса стал символом России”: mapas de 1539 e 1541, Herberstein, gravuras de 1737. https://ria.ru/20181115/1532766086.html
- Российское историческое общество, “Медведь, осьминог и злые мужики”: o urso nos mapas satíricos dos séculos XIX e XX. https://historyrussia.org/sobytiya/medved-osminog-i-zlye-muzhiki-rossiya-glazami-sosedej-po-satiricheskoj-karte.html
- АиФ Ярославль, “Символ города. Почему в Ярославле столько медведей”: o urso no brasão de Iaroslavl. https://yar.aif.ru/society/persona/simvol_goroda_zasile_medvedey_v_yaroslavle
- RIA Novosti, 2007, sobre a bandeira e o brasão de Veliky Novgorod (decreto de 1781). https://ria.ru/20070610/67044370.html
- АиФ Новосибирск, 2026, “79% россиян назвали медведя главным символом силы духа”: pesquisa Litres e VTB, agosto de 2026. https://nsk.aif.ru/society/79-rossiyan-nazvali-medvedya-glavnym-simvolom-sily-duha-vtb-i-litres
- АиФ, “Куда улетел Олимпийский Мишка в 1980 году?”: escolha do mascote, Chizhikov, cerimônia de encerramento. https://aif.ru/dontknows/file/kuda_uletel_olimpiyskiy_mishka_v_1980_godu



