Nenhum outro povo desenvolveu um sistema de nomes do meio como o russo. Não é um costume enfeitando o nome: é uma instituição linguística com regra, história e função social próprias. Entender o отчество (otchestvo, o patronímico) é entender metade da educação russa.

1. O nome que vem do pai

A regra é direta. Ao filho de Пётр (Piotr) se diz Петрович (Petrovich). À filha, Петровна (Petrovna). Do mesmo modo: Иван (Ivan) gera Иванович (Ivanovich) e Ивановна (Ivanovna); Николай (Nikolai) gera Николаевич (Nikolaevich) e Николаевна (Nikolaevna). Os sufixos -ович (-ovich) e -евич (-evich) marcam o homem; -овна (-ovna) e -евна (-evna) marcam a mulher.

A tradição até tem uma fórmula própria para perguntar o nome do meio de alguém: «Как вас по батюшке?» (Kak vas po batushke?), algo como “como se diz o seu nome, pelo papai?”.

2. O mapa do respeito

O patronímico não é informação, é instrumento. No ambiente de trabalho, na escola, na repartição pública, um adulto se trata pelo nome mais o nome do meio. Receber só o nome é coisa de criança ou de amizade íntima.

Por isso errar o código custa caro. Chamar um desconhecido pelo nome pelado soa a desrespeito; tratar um amigo de infância por nome e patronímico soa a distância. O russo não escolhe essas formas por acidente: ele lê, a cada frase, o lugar do outro na conversa.

3. A origem escandinava

O sistema nasceu longe de Moscou. Os primeiros governantes das terras russas eram escandinavos, e seus nomes eram nórdicos: Рюрик (Riurik) era Khleodrik, Игорь (Igor) era Ingvar, Ольга (Olga) era Khelga. O primeiro herdeiro com nome eslavo, Святослав (Sviatoslav), marca o ponto em que a dinastia passou a olhar para a cultura local.

Segundo o filólogo Фёдор Успенский (Fiodor Uspensky), especialista em antroponímia, a tradição guardou dois princípios vindos do Norte. O primeiro: nomear a criança em honra a um antepassado direto já falecido, nunca em vida. Nas sagas, nome e patronímico iguais indicam que a criança nasceu depois da morte do pai. O segundo: ser tratado por nome e patronímico era privilégio da elite. Na Rússia antiga, ao contrário da Escandinávia, a fórmula não era para qualquer homem livre, só para князь (knyaz, príncipe) e бояре (boyare, boiardo).

4. O único do mundo

O próprio Успенский registra: um sistema de patronímicos tão desenvolvido não existe em nenhum outro lugar. A Islândia tem algo parecido, mas por outro motivo: os islandeses não usam sobrenome.

Sobrenome, aliás, é uma ideia recente. A фамилия (familia, o sobrenome, falso amigo que não quer dizer “família”) apareceu na Idade Moderna. Na Rússia cristã, cada pessoa chegou a carregar dois nomes: um da família e um do святцы (svyattsy), o santoral da Igreja. O nome do meio é mais antigo que a ideia de sobrenome, e sobreviveu a todas as reformas.

5. O costume que atravessou a guerra

A regra do antepassado falecido reapareceu no século XX. Em aldeias russas, durante a Segunda Guerra, evitava-se dar ao recém-nascido o nome de um parente desaparecido, de destino incerto. Só se batizava em honra a quem tinha a morte confirmada. Por trás de cada nome do meio havia, às vezes, uma certidão implícita.

Quando um russo diz seu nome completo, ele entrega mais que identidade: entrega a história da família, o lugar dos antepassados e o código de respeito com que quer ser tratado. Quem aprende russo não decora um formulário. Aprende a ouvir essa história.

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Fontes