“Режиссер: Алексей Балабанов” (Direção: Alexei Balabanov): adesivos com essa frase ainda são vendidos na Rússia, treze anos depois da morte dele. O sobrenome virou adjetivo. Os russos chamam de “balabanovski” qualquer cinema sombrio sobre o lado áspero da vida, e de “balabanovschina” muito do que acontece fora da tela.
Esteta interessado no que há de mais baixo nas pessoas? Misantropo de coração vulnerável? Humanista amargurado? O projeto educacional russo Arzamas publicou em 2026 um guia para entrar na obra dele, e é esse guia que adaptamos aqui, filme por filme, na ordem sugerida.
Por onde começar
De Aberrações e Homens (Про уродов и людей, 1998)
No início do filme, um homem misterioso chamado Iogann chega à São Petersburgo pré-revolucionária e monta um ateliê fotográfico clandestino: produz cartões eróticos e os distribui pela cidade através de uma rede de subordinados. Aos poucos, sua influência captura duas famílias da intelectualidade, a do engenheiro Radlov, que tem uma filha jovem, Liza, e a do doutor Stasov, pai adotivo de gêmeos siameses. Os “aberrações” do título fascinam o assistente de Iogann, e logo a corte do fotógrafo demoníaco toma o poder sobre as duas famílias, sobe do porão para o andar nobre e troca as fotos estáticas pela novidade da época, a película de cinema.
O próprio Balabanov considerava este seu trabalho mais perfeito, e provavelmente tinha razão. Está aqui, na forma mais compacta, tudo o que define seu cinema: o olhar para o passado que funciona como espelho do presente; o herói solitário e indecifrável; o amor terrível e não correspondido; a Petersburgo esvaziada, onde além dos personagens parecem viver apenas bondes estranhos cumprindo rotas sem sentido.
É também, como muitos dos seus filmes, cinema sobre cinema, não como consolo, mas como máquina de copiar e distribuir dor. E já contém o tema do irmão, central na obra mais famosa do diretor: os gêmeos siameses, ligados no mesmo corpo, são opostos absolutos. Um olha o futuro com esperança; o outro afoga a dor no álcool e arrasta o irmão, quase literalmente, para o fundo. Nessa dualidade está Balabanov inteiro.
Pode parecer uma porta de entrada difícil: o filme não se explica e escapa de qualquer interpretação única. Mas essas lacunas são parte do método. Balabanov escrevia os roteiros à mão, em cadernos, raramente fechava tudo nos detalhes e deixava o filme ganhar vida no set. O resultado é um trabalho que continua vivo na cabeça do espectador muito depois dos créditos.
O que ver em seguida
Irmão (Брат, 1997)
O filme mais popular de Balabanov conta a história de Danila Bagrov, jovem recém-saído do exército que vai a São Petersburgo atrás do irmão mais velho, virado assassino de aluguel, na esperança de organizar uma vida pacífica. Revisto hoje, surpreende o quanto esse filme é desprovido de ação no sentido comum. A maior parte do tempo acompanhamos não o rapaz de suéter fazendo justiça com as próprias mãos, mas tudo o que acontece entre as curtas explosões de violência: Danila caçando um disco da banda de rock Nautilus Pompilius (Наутилус Помпилиус), conversando com moradores de rua num cemitério, tentando sem muito empenho construir alguma conexão humana. É quase um antidrama, onde tiroteios são não a atração, mas o fundo natural da vida do protagonista.
Hoje é difícil medir o impacto da estreia, em 1997. Um diretor que antes adaptava Beckett e Kafka fez, de repente, um cinema popular, contemporâneo e enxuto, no meio de uma indústria praticamente inexistente, quase sem dinheiro, com figurino recolhido entre amigos. E acertou o nervo da época sem tentar: os anos 1990 russos eram, por natureza, um espaço balabanovski, desarrumado, desequilibrado, avesso ao contato humano normal. Para romper o status quo desse mundo, era preciso alguém como Danila Bagrov, um assassino ingênuo que não aceita as leis ao redor não por heroísmo, mas porque simplesmente não consegue compreendê-las.
O diretor não parece ter carinho pelo personagem; observa Danila com interesse quase antropológico. Dele todos querem algo: a mãe quer carreira, o irmão quer usá-lo como isca, a condutora de bonde Sveta quer que ele seja normal, o espectador quer justiça. Danila só quer o disco do Nautilus.
Irmão 2 (Брат-2, 2000)
No final de Irmão, Danila parte para Moscou, e a cena assusta: fica claro que o ciclo de violência vai continuar onde quer que esse “escrivão do exército” de sorriso infantil apareça. Na continuação, Balabanov o manda para os Estados Unidos, que na tela se revelam uma cópia quase idêntica da Rússia: os mesmos bandidos, os mesmos astros de TV, os mesmos trabalhadores de bom coração, até os taxistas falam as mesmas frases.
A missão formal do herói se resolve em duas cenas e dois tiroteios. O resto do filme é Danila e o irmão espalhando caos pela América: brigas absurdas com gangsteres locais, defesa de mulheres encontradas pelo caminho, viagens de costa a costa. Balabanov dizia ter filmado uma comédia, e a comédia acertou, pela segunda vez, o nervo da época, agora os anos 2000, tempo de astros, de rock russo em toda esquina e de um país que seguia em frente acreditando meio na brincadeira que “logo a América de vocês acaba”. É daqui que vem o diálogo que uma geração decorou: “В чем сила, брат?” (Em que está a força, irmão?). “Сила в правде” (A força está na verdade).
Zhmurki (Жмурки, 2005)
Não há mais nenhum herói simpático à vista: apenas sociopatas, psicopatas e tolos de todos os tipos, presos numa trama em torno de uma mala de drogas, traindo, torturando e matando uns aos outros, sem esquecer de se benzer diante de cada igreja. O título é o de um jogo infantil de esconde-esconde, e o filme é montado como uma revista em quadrinhos delirante, uma sequência de esquetes em que astros de perucas ridículas se comportam como crianças gigantes. “Eles começaram”, justifica, com lógica de pátio de escola, o personagem de Alexei Panin depois de matar várias pessoas.
Se a história de Danila Bagrov inspirou no cinema russo uma fila infinita de tramas romantizando bandidos dos anos 1990, Zhmurki era para enterrar o assunto de vez. E é, curiosamente, um dos filmes mais honestos já feitos sobre a década: não por precisão histórica, mas pelo retrato de como o presente enxerga aquela época, reduzida, uma geração depois, a um conjunto de memes.
Guerra (Война, 2002)
Depois do riso, começa a descida ao inferno balabanovski. Guerra é a porta de entrada mais acessível dos filmes restantes, ainda que comece com uma sequência longa e sem cortes de execução de prisioneiros. Na superfície, é um filme de aventura eficiente: o ex-prisioneiro Ivan ajuda o inglês John a resgatar a noiva, sequestrada por combatentes, com cenas de ação inventivas filmadas em primeira pessoa e uma fuga de jangada por um rio entre montanhas. Só que não há heroísmo nenhum em cena. Por mais ousados que sejam os ataques, o que resta é a guerra em si, mostrada como rotina: chegar, ver, matar, partir. Como se fosse assim, como se só pudesse ser assim.
É também outro filme sobre cinema: o sensível John só consegue atirar em alguém depois de prender uma câmera na cabeça. É a lente que lhe dá licença para matar.
Carga 200 (Груз 200, 2007)
A obra mais escandalosa de Balabanov continua difícil de separar da fama sombria que acumulou. A história do policial capitão Zhurov, que sequestra e violenta Anjelika, filha de um secretário do comitê distrital, comporta as interpretações mais amplas, mas nenhuma explica a força primitiva do filme. O próprio diretor dizia que era um filme sobre amor, ainda que um amor horrível, com cheiro de podridão. Funciona mesmo sem qualquer leitura alegórica, como um thriller hipnótico criado por alguém com talento raro para gerar tensão do nada: a caminhonete vermelha que avança ao som da música animada “No País das Magnólias” já parece anúncio de pesadelo antes de qualquer coisa terrível acontecer.
Morfina (Морфий, 2008)
Depois da morte de Sergei Bodrov, em 2002, a morte virou o tema central de Balabanov. Morfina é filmado a partir de um roteiro deixado pelo amigo, adaptação dos contos semiautobiográficos de Bulgákov sobre um jovem médico que chega a uma cidadezinha às vésperas da Revolução de Outubro e se afunda na dependência de morfina.
Em Bulgákov, o médico vence o vício pela força de vontade e pelo desejo sincero de ajudar as pessoas. Balabanov não acreditava nessas coisas: na sua versão, Bulgákov largou a morfina porque ela acabou, e ponto. Seu protagonista é vítima pura da própria dependência, e arrasta para o delírio a enfermeira, a clínica inteira e, parece, o país: no filme, a chegada dos bolcheviques ao poder soa como produto do inferno particular do viciado. Raramente uma adaptação foi tão oposta ao original. E há, de novo, o cinema dentro do cinema: o herói termina sua história num cinematógrafo, entre marinheiros ruidosos, exatamente sob o letreiro de fim de filme.
Eu Também Quero (Я тоже хочу, 2012)
O último filme fecha a investigação de Balabanov sobre a morte, porque em seguida a morte viria buscá-lo. Alguns personagens viajam de carro até uma torre sineira milagrosa, capaz de levar os escolhidos ao planeta da felicidade; ao redor dela, tudo está contaminado por radiação. Os viajantes são reedições de tipos antigos do diretor: o bandido resolver, o músico quieto, a prostituta corajosa, o amigo simplório. Durante quase 90 minutos eles apenas seguem viagem, conversam sem dizer nada. Tudo já foi dito antes; restam só a morte ou a felicidade.
O filme é propositalmente vazio e áspero, filmado em vídeo digital cru. Na cena final, na escada da igreja mágica, o bandido, rejeitado pela torre, encontra o próprio Balabanov, que nunca havia aparecido assim, de frente para a câmera. O diretor informa, triste, que também não foi aceito. Por quê? Não faz ideia. E cai de costas, fulminado pela radiação. Menos de um ano depois da estreia, Balabanov morreu, o coração parou. Quarenta dias depois, a torre sineira que serviu de portal para a felicidade desabou.
Por quais filmes não começar
O Castelo (Замок, 1994)
A segunda obra do diretor, que ele mesmo considerava a mais fraca. Nesta adaptação aplicada de Kafka, Balabanov cede ao peso do material, coisa rara nele, e o resultado lembra às vezes um cinema soviético empoeirado, do qual só a música de Sergei Kuryokhin nos acorda. A curiosidade: Kafka morreu sem terminar o romance, e foi Balabanov quem inventou um desfecho, no qual o Agrimensor finalmente chega ao Castelo e troca oficialmente de identidade, virando mais uma peça triste do sistema.
Não Me Dói (Мне не больно, 2006)
Outro ponto de partida ruim, mas um bom filme. Em 2006, Balabanov quis testar o gênero mais distante do seu estilo, o melodrama, e saiu com uma história terna sobre um jovem arquiteto apaixonado por uma garota estranha protegida por um mafioso de coração mole, vivido por Nikita Mikhalkov. Ela morre de câncer e se recusa a dar importância a isso. Não dói nela, não dói nele; vai doer depois, e por enquanto dá para viver o momento. É o Balabanov mais comovente, ótimo para respirar entre os filmes mais impiedosos, mas não para começar.
Com quem Balabanov trabalhava
Nadezhda Vasilyeva (Надежда Васильева), figurinista de quase todos os filmes a partir de O Castelo, e depois sua esposa. Contava ter se apaixonado pelo diretor antes de conhecê-lo, ao assistir a estreia dele no cinema. Foi ela quem reuniu entre amigos e amigos de amigos o guarda-roupa inteiro de Irmão, feito por quase nada, e recriou o mundo balabanovski na Rússia revolucionária de Morfina.
Sergei Astakhov (Сергей Астахов), diretor de fotografia da maioria dos filmes. Esteta e experimentador, construiu uma câmera caseira para obter a sépia de De Aberrações e Homens. Deixou de trabalhar com Balabanov por divergência: recusou Carga 200, que considerou repulsivo.
Viktor Sukhorukov (Виктор Сухоруков), o primeiro herói balabanovski, presente em seis longas do diretor. Na duologia Irmão, sua voz não é a dele: quem dubla o irmão assassino é Alexei Poluyan (Алексей Полуян), de timbre mais “bandido”, o mesmo ator que viveria o capitão Zhurov em Carga 200. Balabanov montava personagens como quebra-cabeças: o rosto de um, a voz de outro.
Sergei Bodrov (Сергей Бодров), o rosto de Danila Bagrov. Balabanov o descobriu num filme do pai dele e se impressionou com o jogo do ator não profissional: foi o olhar bondoso combinado à frieza inacessível que tornou Danila tão magnético. Bodrov morreu em 2002, aos 30 anos, com toda a sua equipe, soterrado por uma avalanche de gelo no desfiladeiro de Karmadon, no Cáucaso, durante as filmagens de seu segundo longa como diretor. Balabanov eternizou o amigo em Morfina, filmada sobre o roteiro que Bodrov deixou. Foi a última vez que trabalharam juntos, ainda que à distância.
Sergei Selyanov (Сергей Сельянов), produtor de quase toda a obra e dono da produtora petersburguense СТВ (STV). Nos anos 1990 era considerado um jovem diretor promissor, mas decidiu que faria mais filmes confiando o set a outros. Balabanov foi sua grande aposta, feita antes de qualquer fama. Não se separaram até a morte do diretor.
O que diziam sobre ele
“Para mim, o reflexo sempre foi mais forte que o raio. Balabanov nunca seguiu essa fórmula: ele ia direto, pelo raio.” Nikita Mikhalkov, diretor e ator.
“Ele não apenas interpretava com talento histórias inventadas por outros. Era autor no sentido pleno. Nisso se aproximava do rock, onde não há intérpretes cantando canções alheias, onde a canção é uma declaração. Balabanov era autor completo de quase todos os seus filmes.” Sergei Makovetsky, ator.
“Ele era o meu diretor. Meu. Eu o sentia com a pele. Às vezes acho que ele sabia de mim coisas que eu mesmo não sabia. E tinha medo disso.” Viktor Sukhorukov, ator.
“Quando assisti ao primeiro filme dele, vi que aquilo vivia, corria, se movia. Senti: o Aliokha é diretor. Não foi só não decepcionar, foi não decepcionar de forma espantosa.” Sergei Selyanov, produtor.
“Ele era muito fechado. No set quase não falava, só o necessário. Mas criava uma atmosfera de confiança tal que você estava pronto para tudo. Olhava com aqueles olhos calmos e você entendia: esse homem sabe algo que os outros não sabem.” Alexei Poluyan, ator.
Onde assistir
Boa notícia: quase todos os filmes deste artigo estão disponíveis de graça, na íntegra e com o áudio original, no canal oficial da produtora de Balabanov, a Кинокомпания “СТВ”, de São Petersburgo. Os players acima são os vídeos oficiais do canal: Irmão e Irmão 2, em alta definição, passam de 100 e 60 milhões de visualizações, respectivamente. O canal mantém ainda uma playlist com quase toda a filmografia do diretor: Все фильмы Алексея Балабанова.
Ficam de fora do canal duas obras deste artigo: De Aberrações e Homens (Про уродов и людей, 1998) não foi publicada, e de Zhmurki (Жмурки, 2005) existe apenas o making-of. Para esses dois, seguem valendo os serviços russos Okko, ivi e Kinopoisk, por assinatura e com possível restrição de acesso fora da Rússia; Irmão, por exemplo, também está no catálogo do Okko e do ivi.
E um esclarecimento: nada disso está no canal da Mosfilm no YouTube. A Mosfilm, que disponibiliza gratuitamente centenas de clássicos soviéticos, é outro estúdio; os filmes de Balabanov pertencem à СТВ.
Ver esses filmes no original é outra experiência. O ritmo da fala de Danila, o humor seco, as canções do Nautilus que pontuam a história: tudo isso mora no russo falado, e a legenda traduz as palavras sem traduzir o tom. Para quem quiser chegar lá, a Troika está em troikaidiomas.ru.
Fontes
- Arzamas Academy, 2026, guia original deste artigo, “Алексей Балабанов: как начать смотреть его фильмы”, incluindo as citações de Mikhalkov, Makovetsky, Sukhorukov, Selyanov e Poluyan: https://arzamas.academy/mag/1430-brat
- Frames dos filmes: Кинокомпания СТВ, via Arzamas. Fotos de set e de Balabanov: Адиль Кусов / ТАСС e Pascal Le Segretain / Getty Images, via Arzamas
- Okko, página oficial de Брат (1997): https://okko.tv/movie/brat
- ivi, página oficial de Брат (1997): https://www.ivi.ru/watch/33531
- Кинокомпания “СТВ”, canal oficial no YouTube: https://www.youtube.com/@CTBFilm
- Playlist “Все фильмы Алексея Балабанова” no canal da СТВ: https://www.youtube.com/playlist?list=PLUqXLVIhFhqQsPay7qcHcsJVP_up7FzJX
- Filmes completos no canal oficial da СТВ: Irmão (https://youtu.be/aDaaCGZz-Ok), Irmão 2 (https://youtu.be/K9TRaGNnjEU), Guerra (https://youtu.be/uONM3UvntY4), Carga 200 (https://youtu.be/5ZUqRK41guI), Morfina (https://youtu.be/EeeGMdRdH5I), Eu Também Quero (https://youtu.be/qxLRPjcLslQ), Não Me Dói (https://youtu.be/WWZ5P6CbBBE), O Castelo (https://youtu.be/1c-8ukpuZAw)